Superando o passado com apoio jurídico e emocional, é um relato íntimo que tem o objetivo de incentivar a qualquer pessoa que viva situação difíceis a crer em outras narrativas e assim, viver melhor.
Cresci em uma família disfuncional que parecia perfeita aos olhos dos outros, mas que, por trás das portas, escondia feridas profundas.
Durante anos, suportei insultos e manipulações que destruíam minha autoestima. Todo esse sofrimento era encoberto pela máscara da “boa imagem” perante a sociedade.
Todas às vezes que tentei buscar ajuda, fui cerceada, ouvindo de quem deveria me proteger que eu era uma “criança má”, indigna de amor, e sendo cobrada até pela comida que eu “ganhava”.
O que eu fazia de bom era recompensado com um tapinha nas costas e o enunciado: “Parabéns, minha empregadinha!” Isso já com 5 anos!
A ajuda parecia não vir…
Quando comecei a ir para a escola, minha professora foi a primeira pessoa que tentou me ajudar, preocupada com que eu não sabia brincar.
Na terceira série, outra professora me chamou devido ao conteúdo de uma redação, na qual expus, mesmo de forma lúdica, o que acontecia em casa.
Sofri vários tipos de abusos e sempre que buscava ajuda, era silenciada.
Ouvi durante toda a infância que família era isso, que era normal, e que eu deveria aceitar para enfrentar a vida, pois a vida adulta, ah! Seria muito pior! Como já não era amada em casa, ouvia que, por ser fruto de um relacionamento sem amor, ir para um abrigo seria ainda pior.
Prefiro não relatar os detalhes do que acontecia, mas tenho essas lembranças muito claras na minha mente, e os danos emocionais sofridos são profundos.
Jurei para mim mesma que, quando crescesse, não permitiria mais que isso acontecesse.
Segui minha vida, mas, sinceramente, crescer em um ambiente como este dificulta muito a identificar o abuso — ainda mais naquela época, quando a lei não era tão clara sobre isso.
Minhas atitudes eram uma esperança de que tudo mudaria quando eles vissem, através do que eu fazia, a pessoa que me tornei e que a vida era mais colorida do que me ensinaram.
Eu Decidi mudar…
Comecei a trabalhar aos 17 anos e a contribuir com pensão em casa. Acho que, no fundo, acreditava que, ao verem meu empenho para ajudá-los, receberia a aprovação que nunca tive.
Doce ilusão! Saí de casa, consegui uma bolsa de pesquisa e o ProUni para pagar a faculdade e me formei.
Mas ainda estava presa internamente ao ciclo vicioso de agradar quem mais me prejudicava.
Isso me afastou de amizades, de oportunidades e de viver a vida como ela é.
Conhecem a síndrome de Estocolmo? Quase isso, risos.
Difícil descrever em palavras, pois, no fundo, eu ainda ouvia aquelas palavras opressivas que me acompanharam a vida inteira.
Acreditar em Deus e tê-lo como uma presença real, como meu amigo, foi o que me ajudou.
Ele me livrou de situações que vocês nem imaginam! Sempre li muito a Bíblia! Mas não parou por aí.
Casei, tornei-me mãe, e, justamente por querer fazer diferente, comecei a estudar psicologia e vi nitidamente que não era eu o problema.
Não julgo as atitudes humanas; há vários tipos de transtornos que tornam as pessoas quem elas são e afetam os relacionamentos na sociedade.
Então, silenciei tudo isso dentro de mim e passei a ver o lado colorido da vida – e tudo passou a ser diferente.
Porém, quando aquelas mesmas pessoas e atitudes começaram a ser projetadas nos meus filhos, a leoa aqui apareceu.
Pela primeira vez, a palavra “mãe” fez sentido para mim. Não foi fácil reunir coragem para romper esse ciclo, especialmente quando a sociedade tende a julgar quem se posiciona contra aqueles que deveriam nos proteger.
Hoje, enfrento não só o peso das lembranças, mas também a pressão de familiares que tentam me calar, mesmo após medidas judiciais impostas, não por mim, mas por profissionais que avaliaram a situação e ouviram ambas as partes.
O rótulo de “filha ingrata” é fácil de espalhar, mas não me cabe contar o outro lado da história.
Acreditem, nunca tive o suporte que muitos pensam que tive.
Venci e você também pode…
Hoje estou aqui para dizer: o que passei não define quem sou; ao contrário, me fortaleceu e me fez perceber o valor de lutar pelo que é certo.
Ao compartilhar minha história, busco ajudar outras pessoas que vivem algo semelhante a entenderem que têm o direito de se defender e de se afastar de quem as machuca – mesmo que esses sejam os próprios familiares, sejam eles maridos, filhos, ou até os pais!
Se você já se sentiu sozinho(a) ou sem voz, saiba que sua coragem pode mudar sua vida.
Não importa o quanto tentem nos calar, a verdade sempre encontra um caminho para ser ouvida. E essa é a minha verdade.
Busque ajuda
Se você está passando por algo semelhante, saiba que pedir ajuda é possível, e você não está sozinho(a).
Em situações de abuso emocional ou psicológico, além de buscar apoio de pessoas próximas, considere também consultar um profissional da área jurídica, que pode te orientar sobre seus direitos e te dar o suporte necessário para se proteger.
Existem leis específicas que resguardam o direito de defesa e segurança em casos de abuso, mesmo em ambientes familiares.
Lembre-se: você tem o direito de viver em paz e segurança, e pedir ajuda é um ato de coragem e amor-próprio.
Não importa o quanto tentem te calar, sua voz importa – e merece ser ouvida.


